Non-fiction Review #1: On Killing, do Ten. Col. Dave Grossman

Decidi começar uma nova série: reviews de livros de não-ficção. Ao contrário das minhas outras séries, em que me divirto falando de coisas que odeio, aqui eu vou resumir alguns livros que gostei. Os episódios demorarão mais a sair, claro, por conta do tamanho e dificuldade que é ler um livro de não-ficção, que eles requerem muito mais atenção e tempo. Também não vou resumir os livros por inteiro. Isso não seria honesto.

Pois bem, nesse primeiro episódio, vou falar de On Killing: The Psychological Cost of Learning to Kill in War and Society, do tenente-coronel americano Dave Grossman, lançado em 1996. O autor é tanto médico psiquiatra e psicólogo quanto militar da alta patente do exército dos E.U.A. Nesse e em outros livros, ele fala dos males do condicionamento implantado nos soldados e policiais, e como isso está causando uma epidemia de violência e assassinatos na sociedade civil. O livro é obrigatório para ingresso no FBI e em escolas de cadetes norte-americanos e britânicos.

No Brasil, saiu como "Matar! Um Estudo Sobre o Ato de Matar" da editora Biblioteca do Exército (não sei se é um nome fantasia de uma editora ou se é mesmo a biblioteca do exército!).


Um início alarmista e chocante

O começo do livro me deu um belo de um susto. Grossman fala de como os videogames e a cultura pop em geral, em sua maioria violenta, estaria condicionando nossas crianças do mesmo jeito que os soldados, simplesmente por se tratar da mesmíssima técnica usada para fazer os soldados perderem o medo de matar. Ele fala dos jogos de tiro e luta e dos filmes de terror e ação, e de como estudos apontam que isso aumenta a agressividade nas crianças, além dos tiroteios em escolas. Como fui gamer a minha vida inteira, e sou fã de filmes e livros de terror, principalmente os violentos, fiquei de cara achando que também estou me tornando um assassino em potencial. 😱😱😱

Da década de 1960 para trás, as crianças vítimas de bullying levavam facas para a escola. Hoje, elas levam armas. Mas as armas sempre estiveram lá. O que mudou? Acontece que hoje elas não têm mais aquela "trava" que as impede de matar os colegas e professores com os quais conviveu.

Desde que o mundo é mundo, exércitos recrutam jovens. É mais fácil ensiná-los a matar logo cedo, e, segundo o autor, estamos fazendo isso mais cedo do que nunca. Os dados que ele cita são bem alarmantes.

Forças Armadas e Polícias modernas literalmente usam videogames para condicionar seus homens. Mais do que atirar em um boneco, hoje eles atiram em simuladores ultrarrealistas. O inocente é uma pessoa de terno e o bandido, um cara de touca e pingente de prata.  

O autor também fala de que a destruição da família está associada à matança. Até a década de 1960, divórcios não eram comuns—a prática, inclusive, era ilegal em muitos estados americanos, e no Brasil—, de uns tempos para cá, porém, infelizmente tem se tornado quase que comum crianças sem pais. A figura paterna é importantíssima e, se a criança não tiver uma em casa, vai buscar em outro lugar. Isso é realidade especialmente entre os negros americanos. O líder da gangue ou chefe da máfia ("pai", na Ásia, ou "padrinho", na Itália) será o novo pai dessas crianças.


"Killology", ou a ciência da matança

Segundo o autor, há uma resistência inerente ao ser humano que o impede de matar seu semelhante, e isso ainda não foi descoberto pela ciência. É semelhante ao Complexo de Édipo (ou à partícula que causa combustão humana espontânea, mas vamos deixar a pseudociência de lado!). Isso também é verdade no mundo animal: piranhas matam outros animais, mas apenas arranham umas às outras.

Sociedades que mataram muito, como os mongóis os os espartanos, condicionavam suas crianças desde a tenra idade para não terem resistência de matar. Em sociedades em que isso não acontecia (a grande maioria delas), ninguém tinha coragem de matar o outro. Se o fizesse, seria com muito esforço, e o autor sairia com uma sequela mental fortíssima.

Isso continuou até as guerras modernas, quando os altos escalões das Forças Armadas perceberam que os soldados simplesmente não queriam matar os inimigos! Então eles começaram a condicionar os soldados para fazê-lo.

Destarte, Grossman propõe a criação de uma ciência apenas para estudar a matança.


Treinamento versus condicionamento

Filmes da Segunda Guerra Mundial não são realistas. Os de guerra antiga e medieval, tampouco. 

Na vida real, oficiais praticamente tinham que forçar os soldados a atirar, gritando e dando-lhe pontapés; porém, conforme inúmeros relatos, ainda assim os soldados propositalmente erravam os tiros, mirando ligeiramente ao lado dos inimigos. Na Guerra de Secessão, quando os mosquetes dos soldados abatidos eram recolhidos, via-se que a grande maioria deles não havia sido disparada. Como os livros de Bernard Cornwell mostram, guerreiros medievais se embebedavam antes de ir lutar, e tentavam intimidar o inimigo com gritos e xingamentos. A maioria acabava indo embora. Na Segunda Guerra Mundial, o exército alemão era praticamente uma zombie walk, totalmente tomado pelas drogas. Os E.U.A começaram a usar drogas apenas no Vietnã, (como mostra o ótimo filme Alucinações do Passado, de 1990).

Dessa forma, os governos e o alto-escalão, utilizando-se de cientistas (olha aí a ciência sendo usada para o mal!), estudaram métodos para aumentar a frequência de disparos dos soldados. A primeira vez que isso aconteceu com sucesso foi na Guerra do Vietnã. No treinamento, eles corriam todas as manhãs, cantando "Matar, matar, matar!" a cada passo. Eles diariamente assistiam filmes que desumanizavam os vietnamitas. Ao invés de atirar em alvos, como era feito há mais de um século, eles atiravam em bonecos que caíam quando atingidos. Quem tinha boa pontaria, recebia premiações. Era como dar um biscoito a um cachorro.

Isso não é mais treinamento: é condicionamento.

Exércitos ao redor do mundo, principalmente o Americano, empregaram anos de estudo e milhões de dólares para condicionar os seus soldados a matar sem pensar duas vezes.

Mas eles nunca pensaram em como iriam "descondicionar".


Veteranos do Vietnã: uma geração inteira destruída pelo transtorno pós-traumático

Veteranos da segunda guerra foram recebidos como heróis. Até hoje há desfiles e homenagens a eles. Mas os soldados da guerra do Vietnã se deparavam, logo ao voltarem, com uma legião de pessoas enfurecidas no aeroporto, gritando e os chamando de assassinos de crianças. Não houve desfiles nem homenagens..

O sistema de envio dos soldados também contribuiu. Os soldados do Vietnã eram enviados para ficar um ano e logo depois voltarem. Ao contrário da Segunda Guerra, em que o soldado ficava o tempo todo com o esquadrão que acabava se tornando sua família e amigos, no Vietnã eles ficavam um ano com pessoas que eles não conheciam, pois as pessoas estavam sempre indo embora, sendo substituídas, então não era possível fazer amizade com ninguém.


A Falta de conclusão do livro (e a minha conclusão)

Gostaria que o livro tivesse um capítulo chamado algo como "sugestões para não tornar nossos filhos psicopatas" ou algo assim. Mas não há conclusão nesse sentido.

Ele apenas deixa subentendido que os videogames, as músicas e os filmes acabam por destruir a "trava" que os cérebros das crianças têm, então estamos praticamente criando psicopatas.

 Se vou deixar meus filhos consumirem cultura violenta? Sim, mas terei mais atenção agora. Lembro-me de um vídeo do Pe. Paulo Ricardo falando que o seu filho pode, sim, brincar com arma, mas ele tem que entender que é um guerreiro do bem. Encerro esse episódio com ele:

  



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